8/24/2007

ALICE




Alice tinha alguns anos a mais do que eu.Não recordo agora, minha gente, a data do aniversário dela.Mas, Alice não ligava muito pra essas coisas. Dizia que ocasiões sempre hão de existir para se comemorar um bom amigo.Conheci essa menina numa loja de departamentos no centro. Indicou-me, inclusive, a gravata que mais uso.Não sei porque escrevo sobre ela agora. Talvez seja a saudade que sinto.Alice faz falta. É isso.Quando eu tinha dois anos a menos, essa coisa de melancolia não me acometia. Mas, agora...Ando pela casa de pijamas, revejo fotos, releio livros... achei de dar valor ao passado.Não, não que não desse antes. Mas, ando esquecendo, sentado no sofá, da vida.Ando dormindo nos fins de semana quando à noite, há dois anos, pertencia às risadas de Alice ao meu lado, aos goles daquela cerveja, às baforadas daquele cigarro.Não sei porque escrevo isso agora. Não sei porque Alice manchou minha memória antes tão impermeável.Não sei explicar porque me amparo em papel e caneta.Não sei.A verdade é que Alice não podia ter partido. Alice não podia ter me deixado. Nós que nunca fomos um par.Não deu tempo.Naquele número, já liguei, não existe mais sua voz.Naquele endereço, já fui, não há mais sua presença.Alice que só deixou saudade e aquele casaco lilás sujo, daquele vinho tinto, em cima da minha poltrona.Não sei porque guardo aquele casaco.Não sei porque Alice nunca veio busca-lo.Semana passada notei que desbotou. Há dois anos era um lilás tão vivaz.O noticiário começou. Faz tempo que me detenho só nessas lembranças.Desculpe se sou prolixo. Desculpe se tomei muito do seu tempo.É que queria dizer desse amor que há anos vive.Dessa ferida jamais cicatrizada. Da chance irrecorrível. Da tentativa frustrada.Queria somente desabafar o que a alma não cala.Os arranhões que sangram e não saram.Queria expulsar esse viver, esse pesar sem me emocionar...

Oh, desculpe.

(...)






Zorieuq De.19/VIII/07

PELE

E então se sentou no chão.Porque ali era onde sentia o corpo congelar. Sentia-se vivo. O pulso a latejar. A festa havia terminado. A bebida esfriado. O copo perdido num canto. Desleixado. A camisa rasgara-se na altura do colarinho. A calça, suja, de verde parecia um tom qualquer de azul marinho. A casa crescia. O sol a fazia crescer. E os olhos, como se em chamas ardessem, incomodavam tudo o que queria ver.Ver para não esquecer. As cenas que mesmo depois do porre iram embaçar na mente equivocada. Na memória alucinógena das bebidas. Das substâncias diluídas.Mas, mais. Mais do que lembrar da visão. Queria sentir de novo a pele. Tatear, mesmo em meio a risadas enlouquecidas, a superfície daquela alma que tinha o cheiro de alguma coisa doce.Mesmo no devaneio de toda aquela alquimia dionisíaca, conseguia ainda deseja-la lucidamente qual se desejam poucas coisas na vida. Mas, ao acordar mais tarde, sabia que só os raios do sol o confrontariam. Sabia que só daquele chão frio faria protesto. Da pele, de quem quer que tenha sido, na ânsia de querer te-la, teria esquecido!




Zorieuq De [24/VIII/07]

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Artes de guerras
(por luciana cavalcanti)










Dois meninos. E, à memória, reacendem brincadeiras de infância. Tempos idos, no entanto, presentes. Nunca fugidos... Porque amadurecer é tecer artes de guardar. Rememoro. Retenho-me. Parada, alguns minutos, na rua enlameada, sei que me posso re-ver ali: na disputa ingênua e boa de meninos que ainda se distraem jogando pedrinhas na água. Uma. Duas. Três... No terceiro lançamento, um deles gritou:

- Acertei a pedra grande, ilha do meio...!

Não acertara nada. Sua pedra apenas mergulhou na mesma lama, como antes, como as outras...
O outro menino, distraído na hora exata do suposto grande feito de seu companheiro, deteve-se. Havia reunido outras pedras pequenas nas mãos... Fitou o companheiro que, seguia adiante, orgulhoso do êxito rápido de seu bombardeio. Alvo atingido: a pedra-ilha.
Àquele que seguia, vitorioso, já não interessava se a pedrinha-míssel chegara mesmo ao alvo estratégico da batalha inesperada de caminho... Havia acreditado, de fato, em seu prodígio? Ou sabia já que as vitórias, às vezes, são feitas de convencer a quem quer que seja (inclusive, a nós mesmos, com o tempo...) a respeito do que não foi?

- Espeeeeeraa...!, bradou o outro, inconformado, talvez, de ser atirador de pedras menos habilidoso...

Uma. Duas. Três... Quatro?!? Não é possível...! Nenhuma pedra... O segundo combatente, inquieto, apertou os cabelos...
O pequeno soldado vitorioso já dobrava a esquina quando aquele que insistia em também coroar com bravura e eficiência a sua participação na batalha gritou:

- Acertei também!!! E foram duas!!! Você nem viu... Que tiro certeiro, cara!!!

Nenhuma. Duas tampouco... O segundo combatente também gozava apenas da vitória de propaganda. O outro parou, voltou-se durante uns instantes para trás. Entre desprezo e inveja, a sua voz soltou-se para selar fim-de-assunto e fim-de-guerra:

- Eu não estava mais brincando...

Vitorioso, agora. Mais forte e mais soldado, o segundo menino correu, alcançou o companheiro. Riam-se os dois. Duas célebres ações de guerra. Dois êxitos. Dois campeões de guerra de pedrinhas...
Pouco importava, eu sei, a um e a outro, se a pedra-ilha fora bombardeada eficazmente. Eram vencedores. Soldados com medalhas (invisíveis) de mérito. Riam-se.
Saíram do meu campo de visão... Deixaram, em mim, além da vontade reprimida de lançar pedras-mísseis também, um alvoroço de idéias por testemunhar, em brincadeira de rua, algo dos fios que tecem a História. O poder e vitória dos vencedores, como dos narradores, pousa na cegueira de quem ouve ou lê.
Vitória dita, festejada, é vitória vencida. Assim ficará guardado. Assim ficará sendo... E, depois, a memória trata de confundir o que foi com o que não foi. Assim é. Assim se fez... Brincadeira séria de re-inventar verdades. Os homens, meninos, nem querem aprender a perder suas guerras inventadas. Arma forte, a palavra se faz escudo e abrigo. A vitória vem... Certeira como a pedra que não-foi, a palavra atinge ilhas, espaços, vontades, memórias.
Dizer que são brincadeiras de rua... Acontecidos de andança infantil. O caminho (cansado) da escola até a casa é, afinal, pleno de convites às verdades de quintais (que já não são tantos...), verdades, sem conseqüência, de estar ao ar livre e distrair-se sem bytes. São meninos... Ora, o são! São homens que se fazem. Homens que se descobrem “inventores de verdades”.
Longe de discursos sobre éticas, as mentiras caminham, sem danos, ao nosso lado, na meninice. E intuo que, talvez, a última morada da sinceridade seja a voz dos donos de verdades únicas, absolutas...





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(...) Recife, Várzea do Capibaribe, 23 de Agosto de 2007 – 13 h 05 min.